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domingo, 26 de julho de 2015

Artigo do China Chic sobre o Japão...

Encontrei um post no blog China Chique que falava sobre dança no Japão.
Achei bem curioso e vou colocar aqui. 
Quem quiser ler mais sobre o assunto leia lá no blog do China Chique.



 "vi uma matéria hoje na CNN Ásia que me deixou surpresa, para não dizer chocada. Imagine a cena: fim de semana, você sai de casa para curtir a noite com os amigos, entra em um club de música e dá de cara com os cartazes abaixo.










What??? Isso mesmo que você leu! O simples fato de dançar em clubes, bares ou qualquer lugar público é estritamente proibido no Japão! Dá para acreditar?
Essa lei, em japonês fueiho, foi criada em 1948 para acabar com a prostituição na epóca em que o país estava devastado pela II Guerra Mundial. Nas décadas de 70, 80 e 90 o país já estava em uma situação melhor, as danças recomeçarem e a polícia meio que “fechou os olhos” para isso. Mas, depois de serem divulgados casos de drogas envolvendo celebridades e da morte de uma jovem em uma balada em Osaka, em 2010, a proibição da dança voltou a prevalecer, assim como as detenções passaram a ser constantes. Hoje, políciais invadem casas noturnas, acabam com a festa e arrastam djs e donos de clubes para a delegacia para fazer teste de drogas. Eles ainda podem responder pelo crime de deixar as pessoas dançarem, com chance de serem presos. Seria cômico se não fosse verdade!
Alguns lugares até tem permissão para deixar as pessoas dançarem, mas devem fechar as portas até a meia noite. E as restrições não param por aí: as luzes não podem ser muito escuras, para evitar uso de drogas, violência e abusos sexuais (que amigas que moraram no Japão me contaram, acontece muito). Na entrevista feita com Murata, dono de alguns clubes de Tóquio, ele diz que já passou 21 dias na cadeia por violar a proibição da dança e vive com medo de ser pego pela polícia de novo, tanto que a sua casa noturna é subterrânea, bem escondida.
Empresários, djs, amantes da música e advogados se uniram para pedir o fim dessa lei. Até políticos querem acabar com a proibição, alegando que o país precisa ter vida noturna para atrair mais turistas para as Olimpíadas de Tóquio, em 2020. Pelo menos, eles já podem respirar (um pouquinho) aliviados, pois parece que está sendo criada uma lei que permite que alguns lugares liberem a dança all night long, nas noites de sexta-feira. Mas claro, com uma condição: as luzes devem ter mais de 10 lux, semelhante a uma sala de cinema com a luz acesa. É isso ou nada!"


fonte: http://chinachicblog.com/tag/asia/


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Matéria com Tadashi Endo

Reportagem muito legal que saiu no "Jornal OPovo"

link: http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2015/01/22/noticiasjornalvidaearte,3380808/para-ficar-na-memoria.shtml

Tadashi Endo (direita) com o mestre de butô Kazuo Ohno, falecido em 2010
REPRODUÇÃO/TADASHI-ENDO.DE


22/01/2015

Para ficar na memória

Na continuação da entrevista, o bailarino japonês Tadashi Endo acredita que é preciso falar sobre as dores

A dança butô, surgida no Japão do pós-guerra, foi criada como forma de protesto à americanização do teatro e da dança japonesas. Criada por Tatsumi Hijikata (1928-1986), foi disseminada no mundo a partir da década de 1970. E bem distante da estética do balé clássico – e sua beleza, suavidade e excesso de luz-, o butô segue na linha oposta “porque a vida é cheia de dores e problemas” e o corpo não é apenas feito de braços e pernas, mas de cantos entre os dedos e atrás das orelhas, de umbigos e dobras, daquilo que acontece dentro dele e escoa para fora, muitas vezes num movimento tão avassalador quanto um terremoto ou tsunami. (Elisa Parente - elisa@opovo.com.br)

OP – O senhor costuma citar uma frase do (mestre de butô) Kazuo Ohno em que ele diz que “qualquer pessoa pode dançar butô”.

Tadashi – O butô foi criado especialmente para o corpo japonês, que é diferente do corpo latino-americano. Temos pernas curtas e corpos esguios, o tronco tem uma curvatura que nos aproxima do solo. É importante lembrar que a dança butô foi criada em um momento em que o Japão vivia o pós-guerra. Portanto, se você não é japonês, não pode dançar aquele butô, mas o butô não é tão exótico quanto o teatro nô e o kabuki (manifestações culturais japonesas tradicionais). Quando trabalhei em Salvador com atores e bailarinos do Olodum percebi uma energia muito positiva. Mas a sensibilidade deles, é claro, difere da japonesa. Eles mostram de maneira muito direta esta energia. Já os japoneses trazem essa energia escondida. 



OP – O senhor diz que não há técnica para se dançar o butô. Que o corpo do bailarino é como uma tela em branco onde o espectador projeta suas próprias histórias e imagens. Como se dá a relação entre artista e o público?

Tadashi – É claro que tudo o que fazemos no palco faz parte de um show, mas o que queremos mostrar não é o que o público vê sob a luz cênica. Por exemplo, se eu danço de maneira artificial, com bons movimentos, uma boa técnica, talvez os espectadores se impressionem e batam palmas. Mas depois, por quanto tempo o que eles viram ficará na memória? Muito mais importante é que o público seja tocado e se recorde, através da dança, de alguma memória ou experiência de vida, ou ainda de alguma dor que possa emocioná-lo novamente. E sim, meu corpo é como uma tela em branco, mas não demonstro nada da minha vida neste quadro. O público não irá se conectar. É muito mais interessante que eles se enxerguem no meu corpo.



OP - Fukushima Mon Amour faz referência à catástrofe de Fukushima. O senhor pode falar sobre seu processo de composição?

Tadashi – Quando a catástrofe aconteceu, eu estava em São Paulo. Quando consegui voltar, fiquei tão frustrado, porque ninguém queria falar sobre o que aconteceu. E eu não conseguia tirar aquela tragédia da mente. Imagine que não faz muito tempo que o Japão sofreu um ataque de bomba atômica e porque ninguém quer falar sobre isso? Porque o que move nossas vidas hoje é o dinheiro, a economia, o capital. Por esta razão vemos Alemanha e França vendendo armas para a Síria e a Arábia Saudita, enquanto querem por fim ao terrorismo. É absurdo.



OP – Vivemos em tempos de extrema intolerância. O senhor disse acreditar que somente a união de todas as raças traria alguma esperança de paz.

Tadashi – Só existe de fato uma chance. Dançar Fukushima Mon Amour é tão doloroso, mas existe nele alguma esperança, principalmente para as próximas gerações. E é isso que devemos passar a eles. E sim, unir as pessoas é a única saída. Sabe, Dalai Lama disse: se nenhuma religião existisse no mundo, a humanidade viveria em paz. Os fanáticos e instituições como a igreja movimentam muito dinheiro e corrupção e este é o problema. Bom, mas vamos lá. Na próxima vez a gente toma uma cerveja e conversa mais.



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Artigo: BUTÔ, KAZUO OHNO, DANÇA JAPONESA E EU?

por Letícia Sekito  15/07/2010
http://idanca.net/buto-kazuo-ohno-danca-japonesa-e-eu/

Letícia Sekito é diretora e dançarina da Companhia Flutuante. Trabalha com improvisação, criação coreográfica e performance. Formada pelo C.E.M – Centro em Movimento, Lisboa (90-96). Tem interesse na relação entre corpo, cultura e dança. Faz parte do Centro de Estudos Orientais, coordenado por Christine Greiner, e do Centro de Estudos em Dança, coordenado por Helena Katz.


Não me lembro exatamente da primeira vez que ouvi falar sobre butô, mas me lembro de ter uma pequena imagem feita na cabeça de algo que era estranho, misterioso, subversivo e japonês.
Diferentemente de muitos brasileiros, eu primeiro ouvi falar da dança butô e somente depois de Kazuo Ohno. Aqui no Brasil, Kazuo Ohno, butô e dança moderna japonesa são coisas que quase se confundem ou se fundem na maioria das vezes. E isso, eu fui me apercebendo devagar.


Por volta de 1996/1997, quando tinha acabado de voltar da minha formação em dança realizada em Lisboa, no estúdio que hoje conhecemos como C.E.M. – Centro em Movimento, dirigido por Sofia Neuparth, comecei a me apresentar com pequenos solos  e performances e fui sendo surpreendida por determinadas reações do público:

“Você faz butô?”, “O gestual das suas mãos parecem ser de dança japonesa…”, “Há algo no seu movimento que me lembra o butô. É butô?” E isso era muito estranho para mim.
Sempre respondi que realmente nunca fiz butô, que trabalhava com dança contemporânea, improvisação. Hoje, a única coisa que posso dizer é que o meu querido professor e artista Peter Michael Dietz (com quem estudei durante cinco anos em Lisboa) fez – entre várias outras coisas – parte de uma companhia dinamarquesa, a DanceLab, que trabalha no viés do butô. Mas confesso que, no fim dos anos 90, eu nem sabia exatamente o que seria esse butô tão presente no imaginário dos artistas aqui no Brasil. Comecei a me incomodar com isso e percebi que tinha de me aproximar desse butô, para saber porque havia pessoas que enxergavam essa conexão com o meu dançar.


Tive sorte. Em 1997, conheci o Kazuo Ohno meio de surpresa. Para ser mais exata, conheci um Kazuo presente no frenesi das pessoas que o esperavam encontrar para um workshop e espetáculo, no SESC Consolação, em São Paulo.

Confesso que fiquei muito cética e desconfiada com aquela comoção e sensação de idolatria frente a um artista que boa parte das pessoas ainda não tinha visto. Me perguntava: será que todas estas pessoas realmente conhecem o trabalho do  Kazuo? Será que já estiveram com ele mesmo? Ou seria a força do fenômeno “fama que antecede a experiência”? Ou este arrebatamento se deveria ao caráter exótico de um artista vindo lá do Japão, terra distante e já venerada pelo Ocidente, que faz uma dança outra, uma dança “fresca” aos nossos olhos de turista?


Curioso foi o workshop. Parecia que estava tão perto e tão distante do Ohno san. Acho que, por um lado, eu me sentia um pouco à parte do todo porque havia uma sensação mista de deslumbramento, respeito, expectativa pré-concebida na sala, e isso me desconcertava um pouco. Por outro lado, era complicado irmos recebendo algumas instruções mediadas de Ohno para seu filho Yoshito Ohno, de seu filho para o tradutor e finalmente do tradutor para nós, numerosos na sala. Sem contar que a duração do workshop foi curta, curtíssima. Trabalhamos com tudo muito simples, explorando imagens/metáforas, sensação do corpo para o movimento, imaginação, improvisação. Me lembro da imagem de uma flor que desabrocha. Muito simples. Nada muito revelador. Tranquilo. Simples.

Mas à noite, teatro lotado, público “expectando”, momento da apresentação de Kazuo, sempre acompanhado de seu filho Yoshito.


Mudança.



No momento em que o vi dançar realmente pude sentir e conhecer o outro Kazuo, o artista. O seu estar mudou o lugar, mudou concretamente o estar da maioria das pessoas, pelo menos daquelas que foram atraídas e envolvidas pela sua energia sincera, forte e amorosa.

Kazuo vibrava numa sintonia diferenciada, onde a expressão de pessoa, de arte, de comunicação e de existência plena se concretizavam num dançar/ser sincero e belo. E ainda muito mais. Patéticas parecem minhas palavras ao tentar descrever o que seria aquela dança ou o artista. Naquela apresentação, ao mesmo tempo nada “grandiosa” ou “espetacular”, no sentido que costumamos dar a um acontecimento cênico, mas incrivelmente poderosa. Algo que faz a diferença no mundo.
Eu poderia parar por aqui. Mas há outros Kazuos que se foram revelando com o tempo. O meu, nosso tempo. E o curioso é que fui conhecendo estes outros Kazuos aqui em São Paulo, longe do Japão, em diversas atividades artísticas, palestras e cursos realizados na Fundação Japão, no SESC São Paulo[1], ou em algum evento relacionado ao butô, e sobretudo, com a pesquisa da professora Christine Greiner e do Centro de Estudos Orientais, que me ajudou a abrir caminhos para novas perguntas, novos desfrutes e enriquecedores olhares sobre: o corpo japonês, o  butô, o próprio Kazuo e Tatsumi Hijkata, Min Tanaka e outros artistas deste movimento ligados ao cinema  e teatro, à fotografia (Eikoh Hosoe), à literatura e à poesia, e sobretudo, a uma reflexão sobre os contextos cultural-artístico e político-social do butô no Brasil e no mundo.
Não somente eu, mas várias outras pessoas conheceram e vão conhecer ainda um outro Kazuo: o Kazuo Memorável, documentado através de registros em vídeos, fotos e em testemunhos de artistas, pessoas próximas, alunos e admiradores, sem falar do mundo virtual, no próprio site do seu estúdio, no youtube e aqui no idança.
Mas há um Kazuo, que recentemente está mais presente e que me assusta muito mais do que me estranha.
É o “Kazuo Ohno-Selo de Garantia”, que faz parceria com o “Butô -Selo de Garantia”. Não é de agora, mas com o falecimento de Kazuo, temos de observar muito bem como seu nome é e será citado, usado e divulgado.
Agora como nunca ele é selo de garantia, é marca.


Vemos muito disso por aí: no Youtube, nos currículos artísticos, em projetos de pessoas que fizeram um workshop de um dia, uma semana ou um mês e que dizem que dançaram com Kazuo Ohno, ou aqueles que se mascaram com maquiagem branca, fazem movimentos lentos, espasmódicos, “sofridos”, que dançam a vida/morte, o útero/a mãe/natureza, e cedem ao devaneio e aos “impulsos internos” e que por isso, dizem: faço butô. E se por sorte ainda têm “olhos puxados”, daí é garantia total. “É Kazuo, é butô, é de vanguarda? Pode consumir.”

Muita nebulosidade neste momento.
Que tal irmos com calma?


Butô foi um movimento artístico de vanguarda. Surgiu num contexto bastante específico em uma Tóquio pós-guerra, nos anos 50 do século passado, envolvendo artistas da dança, do teatro, da performance, do cinema, da literatura e das artes visuais. A repercussão do movimento foi forte, mas desagradável no Japão, muitos artistas para não passarem fome ou para cuidarem da sua saúde imigraram para o Ocidente, para o lugar onde o butô obteve um forte reconhecimento. Os artistas se adaptaram e se reinventaram em terras estrangeiras.



Mudanças.



Outro momento para o butô. Os artistas mudaram.

Mas o Ocidente ainda não se cansa de etiquetar dançarinos japoneses em “butoh dancers”, mesmo quando os próprios artistas não se vêem como tais.
Agora o butô vê seus precursores Hijkata e Ohno falecidos.  E agora temos Kazuo Ohno – Selo de Garantia, ou como já ouvi falar Kazuo Ohno –  “uma grife”.
Como se configura o butô hoje em dia?
Será possível se fazer  butô hoje em dia?
De que butô estamos falando?


Kazuo Ohno não se interessou em desenvolver um sistema de aprendizado do seu butô, generosamente compartilhava sua experiência de vida e arte com quem quisesse participar de suas aulas abertas e gratuitas. Não pensava em “ensinar butô” a ninguém, e não nos deixando um método seu, como fez Hijikata em seu “butô-kabuki, (…) um possível método de ensino e de formação de jovens artistas”, talvez tenhamos que nos contentar em ficar com vestígios e rastros valiosos, os felizardos que puderam ver Kazuo em cena, guardarão em seus corpos memórias de um lindo Kazuo.

Talvez o nome do evento  “Vestígios do Butô”, realizado em 2004, também no SESC Consolação, nos dê uma boa pista sobre o futuro do butô. E talvez não seja interessante  ficarmos procurando por ‘fazedores de butô”, ou nos “herdeiros do butô Kazuo Ohno” (ai que medo!).
Em uma conversa muito interessante como a pesquisadora Christine Greiner, coloquei a dúvida de como olhar para o butô hoje, já que sabemos que não é por copiarmos os movimentos lentos com concentração de energia interna do movimento ou pintar o corpo de branco e lidar com os temas da morte/vida, “dançar uma flor ou pedra” ou seja, copiar uma “estética butô” para se fazer butô.


O que nos resta hoje?

Memórias, vestígios, traduções, aproximações, conversações?!…
Talvez pudéssemos observar trabalhos artísticos que possam dialogar, se conectar, se tocar com a questão do “corpo em crise”, mas querer ser, fazer, ter butô na sua dança? Talvez seja um grande equívoco a ser evitado.

Momento difícil, reconhecer a perda.